Pisando o Risco

Artigo de Opinião de António Martinó de Azevedo Coutinho sobre o Café Alentejano

Pela edição do Público da passada sexta-feira tomei conhecimento dos protestos que ocorrem em Portalegre a propósito da mudança de sítio do histórico Café Alentejano. Segui, aqui e agora, a informação constante do título do artigo que preenche uma página inteira do conceituado diário nacional.

Compreendo a inquietação. O abaixo-assinado de repúdio subscrito por cerca de quatro dezenas de historiadores de arte, arquitectos, professores universitários, arqueólogos, conservadores de museus, investigadores, cineastas, etc. (continuo a citar o artigo) merece seguramente alguma atenção.

Porém, o que apetece perguntar de imediato é por onde andaram tantas personalidades durante todos estes últimos e dilatados anos de ostensivo estertor do histórico café, para só agora se terem dado conta da imperiosa necessidade da sua intervenção. Certamente frequentadores do estabelecimento, não teriam sido mais atempados, oportunos e eficazes o seu testemunho e a sua iniciativa se prestados na altura adequada?

Estiveram distraídos e só despertaram agora, perante o facto consumado!?

No artigo em apreço é posta em questão a legalidade da posse e da transferência de algumas peças do recheio do estabelecimento. Naturalmente, perante os argumentos esgrimidos, é à esfera judicial que compete decidir sobre o diferendo.

Se efectivamente o actual proprietário do edifício tiver como objectivo concreto a sua integral recuperação, as diligências deveriam dirigir-se para a posterior reposição, in loco, do original e histórico Café Alentejano. Este desígnio, certamente desejável, apenas poderá atingir-se através de um diálogo aberto e leal entre as partes interessadas.

O património de Portalegre seria assim enriquecido, com a plena “devolução” duma das “joias” sócio-culturais mais apreciadas pela sua comunidade e não só.

Já agora, talvez seja oportuno analisar uma afirmação constante do artigo do Público.

Diz-se logo a abrir que José Régio ali se reunia com o mundo intelectual e que certamente ali congeminara, entre outros poemas, as 1.065 palavras da Toada de Portalegre. Mais acrescenta o texto que o estabelecimento está ligado à memória de pessoas como José Régio, David Mourão-Ferreira, Manoel de Oliveira e Manuel D’Assumpção, entre muitas outras.

Deixemos de parte a exótica apreciação contabilística do imortal poema e fixemo-nos no fundamental.

A partir dos anos 40 do passado século, frequentei assiduamente o Café Alentejano, prática partilhada por muitos outros elementos da academia local desses tempos. Era o estabelecimento do género mais próximo do Liceu onde estudávamos e assim ganhámos tal hábito. A partir de certa altura, partilhámos essa presença colectiva com o Central, mais tarde com o Facha, este sobretudo a propósito das quotidianas vivências do Amicitia e de um mais estreito convívio com José Régio.

Com segurança, a única presença regular que poderíamos garantir no Alentejano, daquela lista nominal do Público, será a de Manuel D’Assumpção (ao tempo: Rosiel, filho), então um jovem e promissor artista que residia na cidade.

No respeitante a José Régio e a David Mourão-Ferreira, as suas frequências do Alentejano eram raras, meramente ocasionais, e, acerca de Manoel de Oliveira, apenas nos tempos da tertúlia literária sita no Facha o cineasta visitaria com alguma assiduidade o amigo poeta e os seus companheiros.

O único depoimento conhecido quanto aos primeiros consta dum breve depoimento que David Mourão-Ferreira nos confiou, a António Ventura, a Aurélio Bentes e a mim próprio, quando o entrevistámos em Lisboa, na Gulbenkian e nos princípios de 1982.

Publicámos essa interessante entrevista no número 4 de A Cidade – Revista Cultural de Portalegre (Abril de 1982), e dali cito:

Uma vez por semana, pelo menos, íamos (David e José Régio) depois jantar juntos: ou ia com ele à Pensão da D. Rosalina Vinte e Um ou ele ia jantar comigo ao restaurante onde eu estava aboletado, pagando mensalmente nessa altura -o que é extraordinário!- por almoço e jantar, dois pratos a cada refeição, 900$00! Era no restaurante O Melhor do Mundo… Ou íamos por vezes a outros lugares, por exemplo comer um bife ao Café Alentejano”.

De resto, no essencial, tanto na entrevista como em Breves excertos de um diário íntimo escrito em Portalegre, datados de Março a Junho de 1952, David Mourão-Ferreira lembrou sempre o Café Central, e em várias ocasiões, como o local público -exclusivo- dos seus encontros e convívios com José Régio. 

Aliás, nas suas póstumas Páginas do Diário Íntimo, também Régio cita expressamente o Café Central por diversas vezes, o Palladium do Porto ou o Diana Bar em Póvoa de Varzim mais raramente, também indirectamente o Facha, jamais o Alentejano…

Portanto, destacar no artigo do Público que este café está “ligado à memória de José Régio, David Mourão-Ferreira ou Manoel de Oliveira” corresponde a um manifesto exagero que importa corrigir e desprezar.

Porém, este facto pouco tem a ver com o evidente interesse em resolver de forma equilibrada, portanto justa, a putativa questão do Café Alentejano.

A sua crónica comunitária, o papel que desempenhou na vida social da cidade de Portalegre ao longo de gerações, a dimensão mítica que ganhou e que o projectou para além da sua implantação local, tudo isso merece respeito e consideração.

Assim, que o protesto deva ser diálogo, que a oposição possa tornar-se aliança, para que todos os direitos sejam considerados, para que a melhor solução comunitária seja atingida.

Portalegre e os portalegrenses justificam esta prudente actuação em vez de tardias, panfletárias e ocas contestações, assentes em toscos argumentos.

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