Opinião: A urgência de devolver a rua às crianças e o papel dos Municípios e Escolas 

Artigo de Opinião de Beatriz Calado, Vice-Presidente da JSD Distrital de Portalegre

No Distrito de Portalegre, como em muitas regiões do país, as crianças enfrentam um desafio crescente: a rua já não é um espaço onde se permanece e se brinca, é apenas um espaço de passagem. Esta questão, deriva das diversas mudanças que ocorreram na nossa sociedade, entre as quais o uso crescente de tecnologias digitais e a falta de atividades ao ar livre. Já não se corre no campo, já não se trepa às árvores e num distrito rico em património cultural e natural como o nosso, é urgente devolver a rua às crianças e as crianças à rua. Para que possam confrontar-se com o risco (sempre de forma supervisionada, é claro) e para que conheçam a sua comunidade, onde são, desde que nasceram cidadãs ativas, direito que lhes é conferido pela Declaração dos Direitos das Crianças proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Esta alteração de comportamentos pode dar origem ao que o Professor Carlos Neto preconiza como “Analfabetismo Motor Infantojuvenil”.  

E, quem pode ter um papel ativo na devolução da rua às crianças? Para que exista uma mudança nestes comportamentos, é fundamental que Municípios, Escolas, Famílias e outras organizações da sociedade civil, colaborem de forma efetiva. Identificando as necessidades de cada concelho, será importante criar programas integrados que combinem recursos públicos e privados que gerem impacto significativo e promovam a educação ao ar livre bem como a utilização do espaço público.  

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Cada concelho terá as suas necessidades e riquezas, ao nível dos espaços públicos, do património natural e cultural que, impulsionados da maneira certa, poderão tornar-se numa extensão da sala de aula onde se desenvolvem aprendizagens significativas relacionadas com a comunidade em que cada criança se desenvolve.  

O Distrito de Portalegre, com a sua vasta área rural e rica herança natural e cultural, torna-se num ambiente propício para o contacto das crianças com a natureza e os espaços públicos, destaco como exemplo o Parque Natural da Serra de São Mamede.  

As relações entre a escola e as instituições e autores locais, têm vindo ao longo do tempo, a ser repensadas e reformuladas, sendo de extrema importância a participação da comunidade educativa na vida escolar e a integração da escola na comunidade educativa, contribuindo assim para que existam relações significativas entre as crianças e as instituições locais, tornando-as parte do processo de construção de aprendizagens.  

Trazer as crianças para as ruas da comunidade, para que possam vivenciar de forma ativa aquele que é o seu contexto, não beneficia apenas as crianças, mas também enriquece as comunidades. Espaços públicos mais dinâmicos podem tornar-se espaços de encontro e convivência com todas as gerações, desta forma, e num distrito como o nosso, torna-se possível a transmissão de conhecimentos e tradições dos mais velhos para os mais novos.  

Escolas e Municípios devem manter um diálogo que permita compreender quais são as necessidades locais e encontrar soluções que possibilitem envolver as crianças na comunidade, uma vez que, as aprendizagens são mais ricas quando partilhadas. Desta forma estarão a contribuir para um futuro onde as crianças aprendam, brinquem e cresçam em harmonia com o seu contexto e comunidade, para que possam ser cidadãs ativas e interessadas na comunidade em que vivem e se desenvolvem.  

É urgente resgatar o papel educativo desses ambientes. Transformar as ruas e instituições da comunidade em extensões das salas de aula, é possível oferecer às crianças experiências práticas e sensoriais que complementam o ensino. 

Esta abordagem não enriquece apenas o currículo escolar, mas também promove valores como a sustentabilidade, o respeito pelo espaço público e a cidadania ativa.

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