
Já se passou o dia do voto antecipado. Alguns portugueses já exerceram o seu direito, outros sabem exatamente onde colocar a cruz no dia 8 de fevereiro. No entanto, muitos ainda vacilam na indecisão e outros, infelizmente, parecem prontos a entregar-se à abstenção. No Alentejo, onde o peso do isolamento e o esquecimento institucional tantas vezes nos fustigam, o ato de votar não é apenas um direito mas sim um forma de mostrar presença.
Esta campanha disse muito sobre o estado do nosso país. Por um lado, surge-nos uma candidatura que personifica os ideais democráticos de liberdade e defesa dos direitos fundamentais, mas que se apresenta por um rigor institucional e uma sobriedade que, receio, não ser suficiente para mobilizar os indecisos da abstenção. Por outro lado, observamos um candidato que parece confundir as eleições presidenciais com legislativas, centrando o discurso em temas como a imigração e a corrupção – bandeiras que, embora ressoem no descontentamento popular, pouco dizem sobre as competências reais de um Chefe de Estado. Confundir Belém com São Bento é um erro constitucional que os eleitores não podem validar por distração.
Fica a pergunta: por que motivo temos um candidato a Presidente da República que falou de tudo menos do que pretende fazer em Belém? E por que razão a candidatura que defende os valores de Estado de Direito parece ter alguma dificuldade em traduzir esses princípios em algo substantivo para o cidadão comum?
Não podemos ignorar o contexto internacional que nos rodeia e que, inevitavelmente, moldará o nosso futuro. O imperialismo de Donald Trump veio e parece não ter data de validade e as incertezas de uma Europa confrontada com urgentes questões de defesa deixam Portugal sem saber para que lado se virar. Precisamos de um presidente que saiba posicionar o país num tabuleiro global atualmente instável, garantindo que a nossa voz – e a dos territórios que, como o nosso, dependem da coesão europeia – não seja silenciada.
A escolha para Presidente da República, digo-vos, não deve ser feita de ânimo leve. São, pelo menos, 5 anos de mandato. Que Portugal queremos ver daqui a meia década? Um país que se deixa arrastar por derivas populistas, como vimos noutras latitudes europeias, ou um Portugal que, tendo saído de uma ditadura há pouco mais de 50 anos, reafirma a sua maturidade sem se aventurar por caminhos incertos?
Para nós, no interior, o Presidente é muitas vezes a última garantia de que o país não termina no litoral. Se ainda não votaste, reflete sobre o peso da tua escolha. Se já votaste, parabéns: cumpriste o teu dever de não deixar que outros decidam o teu destino.


