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A Delegação de Portalegre da Cruz Vermelha tem vindo a elaborar novas estratégias para dar continuidade ao seu trabalho, pensando nas mudanças que a sociedade vai sofrendo ao longo dos anos, o que motiva a necessidade de se adaptar, capacitando os seus funcionários de novas técnicas e estratégias de trabalho, melhorando os equipamentos, o acesso às novas tecnologias, mas sobretudo adquirindo capacidades e ferramentas que lhe permita dar uma resposta com mais qualidade e que corresponda às reais necessidades da comunidade onde se insere.

Neste contexto, e numa perspectiva de futuro, quer em termos de sustentabilidade, quer em termos de encontrar projectos inovadores para este território, surge a mais recente aposta da Cruz Vermelha de Portalegre que, com um investimento que pode ascender aos cinco milhões de euros, pretende construir em Portalegre um Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Demência, cujo projecto de arquitectura é da autoria do arquitecto Manuel da Fonseca.

Este projecto, que poderá criar mais de 40 postos de trabalho directos, visa prestar cuidados especializados e interdisciplinares de intervenção a pessoas com demência e apoiar e capacitar cuidadores formais e informais. Este Centro irá colocar à disposição das famílias, dos cuidadores formais e informais e dos profissionais de saúde e sociais que trabalham com este âmbito, um serviço específico de informação, orientação e formação sobre a demência, tendo ainda como objectivo desenvolver a especialização sectorial da intervenção no sistema da autonomia e cuidado à demência e promover/impulsionar, de forma coordenada, pontos de encontro, troca de conhecimentos e cooperação entre os intervenientes directamente relacionados com a demência.

Em declarações ao nosso jornal, o presidente da Cruz Vermelha de Portalegre, Nuno Borda d’Água, explica que este é «um projecto de intervenção em saúde, neuroestimulação e intervenção comunitária, que denominámos “Centro de Integrado de Apoio à Pessoa com Demência” e que terá sede em Portalegre, abrangendo a população da região Alentejo, com articulação com as Unidades de Cuidados na Comunidade e Centros de Saúde da Região Alentejo. Pretende ser uma ponte com os cuidados prestados pelos serviços de saúde, numa visão integrada, contínua e de proximidade activa com oferta em neurointervenção especializada que se realizará no centro, bem como o acompanhamento no domicílio, visando as necessidades dos doentes crónicos complexos com multimorbilidade», esclarece.

De acordo com o responsável, a ideia de construir neste território uma unidade focada na saúde mental surge no seguimento do programa para a saúde do Governo que estabeleceu como uma das prioridades expandir e melhorar a integração da Rede de Cuidados Continuados e de outros serviços de apoio às pessoas em situação de dependência e aos seus cuidadores.

De acordo com algumas estimativas, existem em Portugal cerca de 150 mil pessoas com demência, a maioria das quais com mais de 65 anos, uma vez que o principal risco para o desenvolvimento de demência é a idade.

Tendo em conta este contexto, e com o envelhecimento populacional, esta dimensão tenderá a aumentar, sendo ainda de assinalar que a maioria dos países europeus tem uma estratégia nacional na área das demências, reconhecendo esta área como uma prioridade de saúde pública, como é o caso do CRE Alzheimer (Centro de Referência Estatal do Governo de Espanha). Inclusive a Cruz Vermelha Portuguesa já é um exemplo nesta área em Portugal com o Complexo de Neurointervenção que se situa em Vila Nova de Gaia, o qual, de acordo com Nuno Borda d’Água, poderá ser de alguma forma replicado, usando toda a experiência que a CVP tem nesta área, para fazer um projecto diferenciador, especializado e como não existe na região Alentejo.

Ao longo do desenvolvimento da RNCCI, foram identificadas novas necessidades a carecerem de desenvolvimento de respostas adicionais, designadamente, a Saúde Mental. Deste modo, a resposta de Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental (CCISM) deve ser «multissectorial, estar localizada na comunidade e estimular a participação dos utentes e seus familiares. O desenvolvimento de unidades e equipas de reabilitação psicossocial que assegurem um suporte de longa duração, numa lógica de proximidade, de maior acessibilidade aos serviços de saúde mental, de mobilização dos recursos da comunidade que procurem a adaptação das respostas a problemas específicos da pessoa em causa, estimulando a autonomia e a tomada de decisão no seu processo reabilitativo, é facilitador da sua inclusão e caracteriza a resposta dos cuidados continuados integrados para a saúde mental».

Câmara cede terreno e comparticipa projecto

Já há algum tempo que a CVP de Portalegre aguardava pela cedência de um terreno por parte da Câmara de Portalegre, no qual iria construir a sua sede, reunindo no mesmo espaço todas as suas respostas sociais e valências, numa perspectiva de optimização dos seus serviços que, presentemente, se encontram espalhados por vários locais da cidade.

Como nos explica o presidente da Cruz Vermelha de Portalegre, a cedência do terreno já está feita, o mesmo situa-se junto ao bairro dos Assentos, nas proximidades do Campo da Feira, e foi isso que também permitiu que «pudéssemos avançar para este “sonho” de criar um projecto completamente diferenciador, que vem dar uma resposta que sabemos ser necessária e que, certamente, terá um grande impacto em todo o nosso território», sublinha, acrescentando ainda que a autarquia, consciente da importância que este Centro pode ter na melhoria dos cuidados de saúde da população, mas também no seu carácter inovador, comparticipou também o projecto de arquitectura, o qual já foi entregue às entidades com responsabilidade nesta área, estando a CV de Portalegre a trabalhar no sentido de ter tudo preparado para avançar com uma candidatura assim que surja a oportunidade de obter financiamento.

Para Nuno Borda d’Água, o PRR poderá ser uma grande oportunidade de obter a totalidade do financiamento para a concretização deste projecto, no entanto, assegura que estão atentos a todas as oportunidades que possam surgir.

Serviços centralizados e mais humanizados

Nos últimos anos a CVP Delegação de Portalegre tem encontrado alguns constrangimentos relacionados com questões financeiras que têm condicionado o desenvolvimento do seu trabalho, mas, como refere o presidente, «a população não pode, de todo, ser prejudicada por esse motivo», pelo que, nos últimos meses, tem vindo a ser delineada uma nova estratégia que «permita uma reestruturação do serviço e que isso resulte no aperfeiçoamento do serviço prestado até então e a criação de novas valências. No presente, a luta contra o COVID-19 tem sido outra preocupação, pois dadas as características do nosso território e face aos problemas psicossociais e de saúde existentes, tem-se verificado um aumento do número de casos sinalizados, o que se vai consequentemente traduzir num maior número de acompanhamentos», constata, assumindo que «actualmente, não temos capacidade para responder a todos os pedidos que são solicitados e este problema deve-se sobretudo à falta de recursos humanos e à falta de condições das nossas instalações».

É neste contexto que outro dos objectivos deste investimento é centralizar todas as suas respostas sociais num mesmo equipamento, nomeadamente o NAVVD – Núcleo de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica, o CAFAP – Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental, e os serviços centrais – Ajudas Técnicas, Loja Social, transporte de Violência Doméstica (VD), Emergência Social (ES) e Tráfico de Seres Humanos (TSH), apoio Psicossocial para Seniores e população em situação de vulnerabilidade social, de modo a melhorar a intervenção da equipa a vários níveis.

Estas respostas encontram-se instaladas em vários locais da cidade, o que traz «constrangimentos organizacionais, operacionais e financeiros», assume Nuno Borda d’Água, referindo que embora algumas das instalações onde se localizam esses serviços estejam cedidas à delegação através de acordos de colaboração, contudo, a Sede é propriedade da delegação através de um contrato de arrendamento.

«A centralização dos serviços é um dos nossos objectivos e o ponto de partida para este grande projecto. Como já referimos, a estratégia que tem vindo a ser delineada requer um elevado nível de complexidade e uma união de esforços de toda a delegação com vista à sua sustentabilidade futura da mesma», destaca, frisando que é também por este motivo que foi feita uma aposta nesta nova resposta que pretendem implementar na comunidade e que «será uma medida inovadora, não existindo nenhuma estrutura semelhante no território».

Para além do Centro focado na demência e das restantes respostas sociais, o responsável revela que há a intenção de instalar neste edifício uma clínica, que colocará à disposição da população um conjunto de especialidades que não estão disponíveis no distrito, contando para isso com os profissionais de saúde e médicos da Cruz Vermelha Portuguesa, aproveitando, também aqui, todo o trabalho que já é desenvolvido a nível nacional para ser colocado ao serviços deste território.

«O “Rugas na memória” mostrou-nos a necessidade dos cuidados nesta área da saúde mental»

A Cruz Vermelha Portuguesa Delegação de Portalegre (CVPDP) tem demonstrado ao longo dos anos a sua preocupação com o bem-estar social, psicológico e económico dos idosos no concelho de Portalegre, trabalhando activamente em prol do bem-estar dos mesmos em diversos projectos, nomeadamente com o projecto “Rugas na Memória…Continue a Viver!”. Este projecto foi desenvolvido pela CVP-Delegação de Portalegre, sob financiamento conjunto com a DGS, entre 2013 e 2015, alicerçando-se no índice de envelhecimento e de dependência do concelho, bem como nas necessidades identificadas no Diagnóstico do Plano de Desenvolvimento Social à data, com a missão de favorecer a solidariedade social, comunitária e familiar no apoio aos doentes de Alzheimer, ajudando a prevenir problemas sociais graves que poderiam ocorrer em Portalegre, pela elevada taxa de envelhecimento demográfico.

O projecto foi concluído com resultados favoráveis, com 75 beneficiários directos, 118.506 beneficiários indirectos, protocolos de cooperação com CMP, CDSS, ULSNA, IPP e Rádio Portalegre, e «mostrou-nos a necessidade dos cuidados especializados nesta área da saúde mental», refere Nuno Borda d’Água, recordando que foram realizadas sessões de avaliação das condições de saúde e estimulação motora e cognitiva durante dois anos, foi concretizado um programa “Grupo de partilha” para cuidadores, e produzida diversa informação e sensibilização através de flyers, outdoor, livros de estimulação cognitiva adaptados a diferentes níveis e manual de boas práticas para os cuidados da pessoa com doença de Alzheimer.

Vários níveis de intervenção

O Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Demência integrará uma Unidade de Dia de Neurointervenção, uma Unidade Residencial, Serviço de Apoio Domiciliário Especializado, uma Unidade de Apoio ao Cuidador e Centro de Formação.

A Unidade de Neurointervenção pretende realizar uma intervenção específica, em que a presença da família será um objectivo constante para esta equipa, no sentido de a incluir no plano de cuidados, no grupo de partilha (integrado no Centro de Apoio ao Cuidador) e nas formações. A família poderá usufruir do descanso do cuidador durante o período diurno, não sofrendo assim o afastamento devido à institucionalização do seu familiar.

Esta unidade terá capacidade para 30 utentes e fará o seu acompanhamento através de terapias que favoreçam a sua autonomia e a não-progressão da doença.

A Unidade Residencial visa garantir o alojamento de pessoas com demência e inclui a prestação de cuidados personalizados de acordo com as necessidades e especificidades de cada pessoa, no sentido de promover a sua qualidade de vida. As estadias são avaliadas de seis em seis meses, e poderão ter a duração de seis meses, um ano ou até mais. A capacidade máxima desta valência é de 60 utentes. Serão destinatários da Estrutura Residencial pessoas com demência que, por razões de saúde, familiares, dependência, isolamento, solidão ou insegurança, não podem permanecer na sua residência, e pessoas com demência, em situações pontuais, com necessidade de alojamento decorrente da ausência, impedimento ou necessidade de descanso do cuidador.

O Serviço de Apoio Domiciliário Especializado (SADE) será direccionado às pessoas com défice cognitivo e seus familiares. Consiste na prestação de cuidados especializados e personalizados no domicílio, onde se desenvolve e promove todas as terapias necessárias à manutenção e promoção da qualidade de vida da pessoa com demência e seus cuidadores/familiares, e terá capacidade máxima para 25 utentes.

A Unidade de Apoio ao Cuidador tem como grande objectivo promover o bem-estar do cuidador, apoiando-o no seu dia-a-dia, permitir a sua frequência em formações que o ajudem e capacitem para lidar cada vez melhor com o seu familiar e permitir a troca de experiências com outros cuidadores, através dos grupos de partilha.

Por fim, o Centro de Formação tem como objectivo a qualificação, aperfeiçoamento e desenvolvimento dos profissionais do sector, cuidadores e comunidade em geral na área das demências. A principal área de actividade deste centro é a área da saúde, uma vez que se verifica uma lacuna na oferta formativa, nomeadamente, nos percursos de formação profissional ligados às doenças neurodegenerativas.

RAP é o novo projecto da CVP de Portalegre

O Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência de Doméstica (NAVVD) da Delegação de Portalegre da Cruz Vermelha viu recentemente aprovado o projecto “Bem Me Quer – Resposta de Apoio Psicológico para crianças e jovens vítimas de violência doméstica”, que teve já o seu início no mês de Agosto.

A RAP para crianças e jovens vítimas de violência doméstica é um projecto inovador de respostas especializadas que permite ser possível dotar, em termos gerais, crianças e jovens de ferramentas psicoeducativas e de competências psicossociais, de modo, a garantir o seu bem-estar e, acima de tudo, a sua segurança.

Mais que inovar, a Cruz Vermelha de Portalegre pretende fomentar e consolidar a intervenção do NAVVD, ao nível das respostas especializadas, sendo o propósito do projecto informar, proteger e esclarecer as vítimas mais jovens, promover segurança e o apoio continuado, integral e gratuito, evitando a revitimização, minimizando os impactos psicológicos e emocionais associados à violência.

Este projecto visa dar resposta de apoio psicológico, promovendo a articulação multidisciplinar e multissectorial, consolidando sinergias nos sete concelhos (Arronches, Campo Maior, Castelo de Vide, Elvas, Marvão, Monforte e Portalegre), enaltecendo as redes externas para trabalhar esta problemática.