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Artigo de Opinião de Helena Adão – Investigadora, Membro de Direção do MARE- Centro de Ciências do Mar e Ambiente, Universidade de Évora. Professora do Departamento de Biologia da Universidade de Évora.

As Nações Unidas dedicam o dia 8 de junho aos Oceanos, um dia para humanidade celebrar o “Dia Mundial dos Oceanos”, este ano dedicado ao tema “Revitalização: Ação Coletiva para o Oceano”. Na base deste título está a importância da “Missão” partilhada da humanidade para encontrar novas ideias, soluções e comportamentos que permitam proteger e revitalizar o meio marinho.  

A “Literacia Oceânica” é um dos pilares fundamentais para o crescimento da sensibilização dos atores da “Economia Azul” ou “Bioeconomia”. O conhecimento da diversidade e funcionamento dos ecossistemas costeiros e marinhos poderão ser o garante de uma consciência civilizacional, em que seja parte integrante do investimento global a proteção e conservação do meio marinho.

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O desenvolvimento de ferramentas legislativas que visem o uso sustentável dos Oceanos tem sido muito importante, das quais se destaca a “Diretiva Europeia de Estratégia Marinha” (2008), que se encontra no final do seu 1ª ciclo de implementação. Com este instrumento nasceu o conceito de “Bom Estado Ambiental-BEA”, que pretende ser um princípio orientador para os setores da economia azul: O uso dos recursos marinhos tem de ser compatível com a integridade funcional dos ecossistemas, não pode comprometer a sua preservação para as gerações seguintes. O BEA é avaliado através da monitorização de “11 Descritores”, alguns já bem conhecidos: D1- Diversidade Biológica B; D2- Espécies não-indígenas; D3-Populações de peixes e moluscos comerciais; D4- Teias tróficas, D5- Eutrofização antropogénica; D6- Integridade dos Fundos Marinhos; D7-Condições hidrográficas; D8- Contaminantes do meio marinho; D9- Contaminantes para o consumo humano; D10- Lixo Marinho; D11- Ruido marinho. E este é um grande desafio para investigação marinha! Como avaliar estes descritores? Como monitorizar os efeitos dos diferentes sectores da economia azul baseado nestes 11 descritores? Existe um longo caminho a percorrer para compreender os ecossistemas marinhos; o seu acesso é difícil e exigente em tecnologia.

A comemoração do “Dia Mundial dos Oceanos” pode ser também o dia em podemos comemorar o contributo que a Universidade de Évora tem tido na produção de conhecimento científico referente ao mar. Docentes e investigadores de diferentes unidades orgânicas trabalham sistematicamente nesta área científica, com elevado reconhecimento incluindo por parte do tecido empresarial de elevada exigência tecnológica. Temos investigadores especialistas em ecologia estuarina e do litoral rochoso cujo seu trabalho é focado na biodiversidade e funcionamento destes ecossistemas com a perspetiva de obter ferramentas de apoio à conservação e gestão de recursos: cogestão de pesca, criação de áreas marinhas protegidas.   Mas também temos investigadores que utilizando tecnologia avançada fazem o levantamento de recursos geológicos da plataforma continental e o mapeamento dos fundos marinhos criando a interligação entre as comunidades biológicas e o substrato geológico. Acrescentar ainda que temos desenvolvido investigação para encontrar ferramentas de monitorização para avaliar as respostas das comunidades biológicas mais rapidamente que os métodos tradicionais, recorrendo a abordagens metodológicas mais avançadas como por exemplo ecologia dos isótopos estáveis ou metodologias moleculares para identificação de mudanças de biodiversidade. Somos parceiros na coordenação de uma rede de monitorização costeira em Portugal, que se encontra em alinhada com infraestruturas europeias. Faz parte integrante das nossas atividades diárias ações de “Literacia do Mar” com escolas, professores, com instituições de governança ligadas ao mar e com o publico em geral.

Participamos ativamente na implementação de ferramentas legislativas, como as diretivas quadro, mas também intervimos na produção de nova legislação que pretende apoiar a conservação e gestão dos ambientes marinhos. Salientar o papel relevante de docentes e investigadores da Universidade de Évora, desde a sua fundação, na “Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental” e sua importante missão na produção de conhecimento científico, suporte da proposta Nacional de extensão da plataforma continental, apresentada às Nações Unidas. Os dados recolhidos servirão como base para a produção de legislação destinada à conservação dos ecossistemas do mar profundo, sujeitos aos efeitos potenciais de mineração.

As Ciências Marinhas na Universidade de Évora têm alicerces bem firmes, sendo uma área científica essencialmente criada pelos docentes e investigadores nela envolvidos com muita paixão e persistência, lutando contra a ideia instalada, pré-concebida, de que nos encontramos geograficamente longe do mar! A distância ao litoral não é um fator relevante para o desenvolvimento de investigação nas Ciências Marinhas, em nenhum país do mundo.

Integramos conjuntamente com outras 8 instituições o Laboratório Associado, “ARNET- Aquatic Research Network”, que tem por finalidade a produção de conhecimento científico com uma perspetiva holística para apoiar as tomadas de decisão e as políticas publicas. Será importante referir que no passado mês de maio, Pedro Raposo de Almeida, Professor Catedrático do Departamento de Biologia foi eleito diretor do MARE – Centro de Ciências do Mar e Ambiente, pelas 7 instituições que o integram.

Somos uma realidade atual na Universidade de Évora e não uma perspetiva futura!  Celebramos diariamente o “Dia Mundial dos Oceanos” através da investigação, ensino, e transferência de conhecimento procurando novas soluções e ações que proporcionem novos comportamentos que permitam proteger e revitalizar o meio marinho.