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Artigo de Opinião da Dr.ª Patrícia Afonso Mendes, membro do Núcleo de Estudos de Prevenção e Risco Vascular

Imagine o coração de uma pessoa saudável como um relógio e, os seus batimentos, o barulho dos ponteiros sempre certo e rítmico. Imagine agora que o relógio avariou e não consegue adivinhar quando vai ouvir próximo “tic tac” dos ponteiros. É assim que ouvimos os batimentos cardíacos de um doente com Fibrilhação Auricular (FA), um coração que não bate a um ritmo certo.

A Fibrilhação Auricular é a arritmia cardíaca mais frequente em todo o mundo, aumentando o risco de a desenvolver com o aumento da idade. Cerca de 10% da população com mais de 65 anos tem esta doença.

O problema desta arritmia é impedir a contração normal de parte do coração: as aurículas. Esta anormal contração, provoca a estagnação do sangue e a formação de coágulos no interior do coração. Se estes coágulos entrarem na corrente sanguínea, podem chegar às artérias que irrigam o cérebro e causar um Acidente Vascular Cerebral (AVC), sendo esta condição a que mais está associada ao risco de mortalidade e de sequelas debilitadoras por causa da Fibrilhação Auricular.

Relacionada com até 30% dos casos AVC, a Fibrilhação Auricular aumenta em cinco vezes o risco de AVC, em três vezes o risco de insuficiência cardíaca e duplica o risco de demência e morte.

Muitas vezes esta doença não provoca sintomas, sendo apenas descoberta quando se investiga o porquê de um doente ter tido um AVC isquémico. Pode também, numa fase inicial, não ser permanente, dificultando mais ainda o seu diagnóstico. Estima-se que em Portugal, 1 em cada 3 pessoas com Fibrilhação Auricular não sabe que tem esta arritmia. Quando é percetível, a maior parte das pessoas descreve sintomas como sensação de palpitações ou batimentos descoordenados do coração, uma pulsação rápida e irregular, tonturas, sensação de desmaio ou perda do conhecimento ou, em casos mais graves e porque os batimentos estão muito acelerados ou muito lentos, dificuldade em respirar ou sensação de aperto no peito.

Existem múltiplos fatores de risco para o aparecimento de Fibrilhação Auricular, entre eles o tabagismo, o consumo de bebidas alcoólicas ou de drogas, o stress, o sedentarismo, a toma incorreta de determinada medicação ou o consumo excessivo de cafeína. Co-morbilidades como a obesidade, a diabetes, a insuficiência cardíaca, a hipertensão arterial, a doença coronária ou a síndrome de apneia obstrutiva do sono, também representam um risco acrescido para o desenvolvimento desta arritmia.

A importância de detetar

Pensa-se que em Portugal a Fibrilhação Auricular esteja directa ou indirectamente responsável por 3% das mortes. Existem alguns aparelhos electrónicos que já são validados nos Estados Unidos da América, mas não ainda na Europa, que ajudam na deteção em casa desta arritmia. No entanto o diagnóstico terá sempre que ser confirmado após consultar um Médico e realizar exames como o eletrocardiograma ou o Holter. Ainda assim, algumas vezes só é diagnosticada usando formas de monitorização mais complexas.

Por vezes, se diagnosticada numa fase precoce ainda sem alterações estruturais do coração, há medicamentos ou tratamentos hospitalares que fazem regularizar novamente o ritmo cardíaco. No entanto, nem sempre isto é possível. Portanto, tão ou mais importante, é a toma de medicação que impeça que se formem coágulos, prevenindo assim os eventos vasculares e as suas complicações. Em toda a Europa, e na maioria dos casos, aconselha-se a prescrição dos Novos Anticoagulantes Orais (NOAC), uma terapêutica que deve ser cumprida com acompanhamento médico.

Acima de tudo há que não esquecer que uma boa forma de prevenir a Fibrilhação Auricular é através da adoção de estilos de vida saudáveis, não consumindo álcool, deixando de fumar, de beber café em excesso e praticando exercício físico. Se tiver sintomas não espere para ver o que acontece: contacte o seu Médico de Família, um Internista ou um Cardiologista.