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Uma história de vida longa, com alegrias e tristezas, mas reveladora da grande tenacidade de uma senhora com um rosto que revela a sua paz, a sua alegria e bondade.

Maria Nunes Garraio Serra completou 90 anos a 10 de Julho e mantém aberta a porta da sua retrosaria na Carreira de Cima, onde está todos os dias, ultimamente com a companhia da sua filha que regressou de Lisboa há um ano após trabalhar 47 anos num colégio na capital.

«Aqui era a drogaria do meu marido», revela D. Maria que conta que «enviuvei aos 32 anos», tinha o marido 35 quando faleceu. E «fiquei com três filhos», a Alzira Alexandre, o António João, já falecido, e o João Augusto. Não voltou a casar porque não quis dar outro pai aos filhos.

Vida dura e difícil para uma jovem com três filhos pequenitos…

«Quando enviuvei não sabia nada de drogaria. Cada um levou o que quis, desfez-se a drogaria e não se viu o dinheiro». Mas «não se ficou a dever nada, que vendi dois olivais que eram dos meus sogros e pagou-se tudo aos fornecedores», porque acima de tudo estava o bom nome do marido.

Depois disso «fui trabalhar para as águas», ou seja para a empresa das Águas Termais, mas entretanto «um senhor quis aqui por uma retrosaria e ofereceu-me o lugar». Pensou e «aceitei o lugar e vim para aqui ganhar 100 escudos (50 cêntimos)». Mais tarde a loja foi «trespassada para o Senhor Mata e eu continuei», conta-nos a D. Maria Nunes, que revela que quando esse proprietário «quis fechar a retrosaria propôs-me que ou me dava uma indemnização ou eu ficava com a loja, e optei por ficar com a loja», de modo que «ainda hoje cá estou e não me arrependi».

A D. Maria explica que «por agora ainda sei que dois mais três são cinco», por isso «ainda cá estou, mas não se pode querer muito porque os anos são muitos», mas «ainda tenho cabeça para fazer uma conta».

Nesta retrosaria, como nas outras, vende-se de tudo um pouco e os artigos estão expostos nas mesmas prateleiras em que antigamente estavam os artigos da drogaria. Ali se venderam muitos cobertores e endredons, mas ainda se vendem pijamas, meias, alguma roupa, lençóis e atoalhados, botões e muitíssimo mais.

Na famosa Carreira de Cima dá-se bem com toda a gente. «Mas as pessoas gostam de si, não gostam D. Maria?»:

– «Acho que sim», responde.

E acrescenta com ironia fina, que «isso quer dizer que as trato mal e que sou má pessoa!». «Tenho sido estimada», conclui agradecia.

A D. Maria Nunes vivia sozinha até há pouco tempo, mas com o regresso da filha de Lisboa para Castelo de Vide agora está acompanhada  porque «a minha filha vive comigo», e mesmo da retrosaria «ela já sabe mais que eu» e «tem outra visão».

Com o seu ar doce, D. Maria confessa que apesar de ter perdido o marido tão nova, de ter criado os filhos sozinha e de já lhe ter morrido um, «apesar de tudo estou contente com a vida», e afirma que «tenho bons filhos e bons netos», que são quatro, e mais um bisneto. 

Apesar de por vezes já vir mais tarde para a loja e de sair também mais cedo, uma vez que a filha assegura todo o horário, a D. Maria continua a passar muitas horas no seu estabelecimento e a fazer todo o atendimento. E nos períodos mais calmos, que são muitos, continua a usar o seu cantinho do balcão, de onde vê a rua, para ali estar sentada a fazer crochet ou outros trabalhos.

A rua já não é como outrora, mas a retrosaria mantém-se intocada e a D. Maria Nunes é a mesma senhora simpática e doce de sempre, com um sorriso na cara e a alma transparente no olhar, a dar-nos lição de vida e a mostrar que com empenho, determinação, respeito e amor pelo próximo podemos sempre encontrar a felicidade, superando as adversidades por mais fortes que sejam os embates da vida.