Foram vários os relatos que nos chegaram do quanto tem sido importante o seu apoio em vários lares “atacados” por surtos de Covid-19 no distrito de Portalegre. A sua acção voluntária em momentos de desespero e o papel preponderante que tem tido na reorganização dos serviços e dos cuidados aos utentes que, mesmo numa situação débil e de grande vulnerabilidade para todos, não podem ceder e ganham uma importância acrescida, merece, por isso, ser contada.

A enfermeira Deolinda Pinto, que é também a provedora da Santa Casa de Arronches há vários anos, colocou os seus conhecimentos profissionais, mas também a sua experiência na gestão de uma IPSS, ao dispor de outras instituições, de uma forma completamente voluntária e altruísta, e nas últimas semanas tem acompanhado vários lares onde surgiram surtos, dispondo de todo o seu tempo livre, e até mesmo de dias de férias, para se dedicar a ajudar todos aqueles que se viram confrontados com uma situação difícil, com dezenas de idosos e colaboradores infectados.
Foi quando surgiu o surto no lar da Santa Casa de Alpalhão que Deolinda Pinto teve a sua primeira acção, e desde então tem colaborado com o lar dos Fortios, da Ribeira de Nisa, da Santa Casa de Gáfete e Santa Casa de Marvão, e mais recentemente foi- -lhe também pedida ajuda para os lares de Valongo e da Terrugem.

«Enquanto enfermeira, e também pela minha relação com a vivência nas IPSS’s, com as dificuldades que têm e enfrentam, quer ao nível de equipamentos, de espaços, quer de filosofia de cuidados, entendi que poderia colocar os meus conhecimentos ao serviço das instituições que ficaram numa situação complicada com o surgimento de surtos nas suas valências», explica, referindo que, a partir da primeira acção que teve, foram surgindo muitos mais pedidos de ajuda, aos quais acedeu de imediato.

Relativamente ao trabalho voluntário que faz, Deolinda Pinto descreve-nos que as intervenções são várias, e diferentes de acordo com as necessidades específicas de cada lar, e que vai desde «a testagem à formação em contexto real de trabalho, que é muito importante, e mesmo fundamental, porque faz a diferença na forma como lidamos com o vírus», e que inclui também «o gerir a
separação quer dos utentes infectados e não infectados, quer das equipas, quem cuida de pessoas não contaminadas e contaminadas, quais são os espaços que devem ser os limpos, os espaços que são considerados contaminados, como se faz a relação entre estes espaços e estas pessoas, como se vestem e removem as EPI’s (equipamento de protecção individual), porque é muito importante criar condições para evitar mais contágios e que os profissionais consigam superar o maior desafio, que é manter-se negativos, que é mesmo o maior desafio, porque estão no foco», constata.

Para além do apoio à gestão de recursos humanos que é necessária nestes casos, em que também muito colaboradores ficaram infectados, a enfermeira tem também ajudado na recepção das Brigadas de Intervenção da Segurança Social, desde a questão da testagem que é necessária, a ensinar o procedimentos em cada instituição, a forma como devem cuidar dos utentes de acordo com as suas necessidades, e procurando sensibilizar para que se protejam, mas também para a importância do seu papel neste momento de crise.

A enfermeira confessa que a maior dificuldade que encontrou é as IPSS’s terem muitas EPI’s que, mais de 99%, não são as adequadas para apoiar pessoas com Covid. «E isso é algo que procurámos de imediato resolver. Tentando junto das empresas adquirir o material certo, ensinar a comprar o que precisamos para cuidar das pessoas. E esta formação tem sido muito importante, porque além de todos os ensinamentos técnicos que são transmitidos, estamos também a dar competências emocionais às pessoas», realça, frisando que ajudar a lidar com a situação, motivando as pessoas e procurando esclarecê-las para os medos que têm, é essencial em todo este processo.

Este foi também um dos seus focos, «dar confiança às pessoas de que vão conseguir fazer, que é difícil e muito duro trabalhar daquela forma, mas que vão conseguir fazê-lo, procurando tranquilizar, gerir o medo que impera, e que é gigante», assume, acreditando que tem conseguido cumprir essa missão, pelo que «é com orgulho que digo que as pessoas conseguiram apreender muito daquilo que lá vou fazer e sentem alento na minha presença, e é isso que me deixa feliz porque sinto que é importante».
Sublinhando ainda que a Segurança Social tem sido fundamental no apoio às IPSS, inclusive com a resposta das Brigadas de Intervenção, esclarece que todo o seu trabalho é desenvolvido em colaboração com esta entidade e a saúde público, inclusive com os delegados de saúde, e, quando é possível, também com as autarquias.
Deolinda Pinto faz questão de realçar que «os funcionários e colaboradores têm sido gigantes», e «merecem ser reconhecidos e até mimados, nem que seja com algumas palavras de conforto, porque estão a fazer um esforço enorme», garante, dizendo-se mesmo «orgulhosa das equipas que estou a ajudar, porque conseguiram perceber o que estamos a fazer, o desafio que tínhamos pela frente. Estas equipas, por exemplo, são fantásticas, por cuidar destas pessoas, sem conhecimento, e ter que aprender tudo comigo, quase à pressa, mas com a vontade
de fazer e cuidar, e é preciso essa vontade», constata.

Reconhecendo que «as pessoas das IPSS’s nunca são olhadas com reconhecimento», Deolinda Pinto defende que é importante que «lhes seja dado o devido reconhecimento, e faço questão de lhes transmitir isso mesmo», embora saiba que «é o pior momento, e pelas piores razões, é importante que isto seja dito, porque estas pessoas não abandonaram os locais, os que puderam ficar,
ficaram, quiseram aprender, positivaram-se a cuidar, e nunca foram embora», relata, frisando que «pode ser que este seja o momento em que a sociedade perceba o papel importante que todas estas pessoas têm e que tiveram nesta situação difícil».
Para Deolinda Pinto não há dúvidas que, apesar de todas as situações de surto que surgiram, e das quais ninguém tem culpa, «o distrito tem que se orgulhar daquilo que as IPSS têm estado a conseguir fazer nesta situação da pandemia», e assume que considera que «os enfermeiros têm aqui um papel fundamental, e de facto sinto-me ogulhosa de ser enfermeira, sempre, mas agora em particular».

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