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Aos 88 anos, Manuel Marmelo é um verdadeiro monumento vivo no que ao artesanato diz respeito. Dedicou toda a sua vida ao ofício de canastreiro, sendo actualmente o único em actividade no concelho de Portalegre. Das suas mãos saíram milhares de cestas, cestinhas e cestões, numa arte que está praticamente extinta devido à excessiva utilização de plástico e à falta de sangue novo que queira aprender o ofício de canastreiro.

Lá para os lados do Cabeço do Mouro, em plena Serra de S. Mamede, começa a faltar gente para ocupar os campos. É ali, no meio da natureza, entre os seus animais e a cuidada horta, que Manuel Marmelo passa grande parte dos seus dias. Há muito que a nossa visita era esperada e à hora certa fomos ao seu encontro. «O que me vai perguntar?», questionou, enquanto nos convidava a sentar no pátio defronte à sua casa. «Queremos que nos conte um pouco da sua vida e nos fale da sua arte», respondemos. Talvez muito tenha ficado por contar, mas durante cerca de 20 minutos Manuel Marmelo partilhou connosco as memórias de uma vida e, ao mesmo tempo, relatou na primeira pessoa as vivências, costumes, história e evolução da sociedade ao longo das últimas décadas.

Nascido, criado, casado e ainda morador na Ribeira de Nisa, Manuel Ribeiro Marmelo iniciou-se no ofício de canastreiro aos 14 anos, sendo «camarada» de um tio com o qual aprendeu a fazer a sua arte. Neste tempo, «em que a vida era escassa», os estudos não eram prioridade como hoje e a preocupação era tentar garantir o futuro. «Naquele tempo não era como agora em que vão para a escola estudar, estudar e estudar. Dantes tínhamos de trabalhar. E eu não tinha outro remédio e tive de aproveitar a oportunidade que tinha para aprender este ofício», refere, adiantando, contudo, que «andei à escola, entretanto saí para ir guardar umas ovelhas e regressei depois ao ofício», conseguindo tirar a segunda classe. 

Numa época em que nas redondezas havia inúmeros canastreiros, começou a aprender com o seu tio esta arte, que, segundo nos diz, «não se aprende de um dia para o outro, leva muitos meses» e aos 18 ou 19 anos começa a trabalhar por conta própria. Tinha como grande comprador das suas obras, o senhor Francisco Esperancinha, fez ainda algumas feiras em Nisa, Alter, Crato e Portalegre, ganhando nome e sendo muito requisitado. «Fazia de tudo, cestas, cabazes do pão, entre outros. Havia muita procura e tinha sempre muitas pessoas que me vinham pedir para fazer trabalhos». Foi do ofício de canastreiro que fez toda a sua vida e que conseguiu governar a sua família, bem como construir o seu património. Contudo, mesmo quando a vida piorou, com a falta de trabalho, arregaçou as mangas e chegou mesmo a trabalhar nas obras do Hospital Distrital e do Infantário da Rua de Santo André. Ainda assim, sempre que tinha tempo, fazia «algumas coisinhas» até que a vida melhorou voltou a trabalhar a tempo inteiro na sua arte.

Manuel Marmelo tinha a sua “oficina” num casão improvisado junto à sua casa, onde ainda guarda os seus instrumentos, e lembra os muitos momentos de trabalho que lá passou «em que começava a trabalhar às 06h e acaba às 22h». «Nessa altura comprava muita madeira, que era enterrada para que pudesse fazer todo o ano». Era um trabalho minucioso, solitário e em que contava, por vezes, com a ajuda da sua esposa com quem esteve casado mais de 60 anos, estando actualmente viúvo.

O plástico e a falta de gente para aprender

A verdade é que hoje o ofício de canastreiro não existe e a profissão que antigamente era muito prestigiada não tem hoje sangue novo para lhe dar continuidade. Longe dos tempos em que as lojas de canastreiros abundavam na Ribeira de Nisa, «cheias de gaiatos a aprenderem o ofício», Manuel Marmelo lamenta que «hoje em dia não haja ninguém que queira aprender». Por outro lado e apesar de ainda fazer algumas peças para oferecer ou apenas para matar o tempo, refere que estas peças caíram em desuso ao longo dos anos devido à utilização de plásticos. «Por causa dos plásticos isto morreu por completo», afirma, lembrando que noutros tempos «os cabazes do pão eram feitos por nós e quando vieram os plásticos isso acabou. Também na apanha do tomate eram utilizados os nossos cestos, que fazia milhares, e agora só utilizam baldes de plástico». Talvez seja este o preço do progresso. Talvez daqui a uns tempos voltemos a valorizar e a dar utilidade. Para já fica o testemunho inestimável de Manuel Marmelo que prestes a completar 89 anos de vida, continua, ainda que por mera brincadeira, a fazer a sua arte e com ela a perpetuar as nossas tradições, a nossa identidade e a nossa história colectiva.

Reportagem publicada originalmente na edição n.º 664, de 18 de Março de 2020, do Jornal Alto Alentejo