Há poucas semanas escrevi aqui sobre a indústria da defesa e sobre a oportunidade que ela pode representar para o nosso território, mas aquilo que me preocupa agora é outra coisa: perceber como é que queremos realmente atrair essas empresas para o Alto Alentejo. Porque dizer que queremos investimento é fácil, todos queremos empresas, emprego, pessoas novas e atividade económica, o problema começa quando é preciso ir buscá-lo.
Durante muitos anos habituámo-nos a apresentar aquilo que temos: terrenos, proximidade com Espanha, custos mais baixos, qualidade de vida e boas acessibilidades, e esperamos que isso seja suficiente para alguém decidir instalar aqui uma fábrica. Só que uma empresa que esteja hoje à procura de um local para investir pode estar a falar connosco e, ao mesmo tempo, com regiões de Espanha, da Polónia ou da Roménia, todas elas também com terrenos, apoios e vontade de receber investimento.
É aqui que acho que temos de mudar um pouco a mentalidade. Não basta dizer ao investidor que Portalegre é um bom sítio para investir. Temos de encontrar o investidor antes de ele procurar Portalegre, perceber que empresas estão a crescer, quem precisa de novas unidades produtivas, quem quer entrar no mercado ibérico e depois ir falar com essas empresas com uma solução concreta.
É precisamente por isso que acredito que faz sentido existir em Portalegre uma estrutura especializada na captação de investimento para a área da defesa. Não porque esteja na moda falar de defesa, mas porque estamos perante uma indústria que está a crescer na Europa, com novos instrumentos financeiros, novos programas e empresas à procura de capacidade produtiva. Essas empresas vão instalar-se em algum lado e a pergunta que devemos fazer é simples: porque não aqui? É daqui que nasce o Industrial Portugal Gateway, que será apresentado esta semana em Portalegre e no qual a NERPOR participa.
Para mim, o mais importante não é criar mais uma entidade ou mais uma sigla, é criar capacidade para procurar investimento, acompanhar investidores e responder quando uma empresa pergunta por terrenos, financiamento, trabalhadores, fornecedores ou licenciamentos. Muitas vezes um investimento perde-se, não porque o território não seja competitivo, mas porque demorámos a responder ou porque outro território chegou primeiro com uma solução mais clara. Na defesa isto ainda é mais evidente porque estamos perante um setor com regras próprias, exigências de segurança, licenciamento e cadeias de fornecedores muito específicas.
O IPG terá agora de provar no terreno aquilo para que foi criado: para transformar contactos em projetos, projetos em investimento e investimento em empresas instaladas. Durante demasiado tempo o interior esperou que os projetos viessem ter connosco. Temos bons argumentos para receber investimento industrial, mas eles valem pouco se ninguém estiver no terreno à procura dos investidores.
No fim podemos ter muitos estudos, estratégias e apresentações bonitas, mas as fábricas continuam a não aparecer sozinhas.