Esta semana volta a realizar-se em Portalegre a Feira das Cebolas, entre os dias 10 e 13 de setembro, no Parque de Feiras e Exposições, e durante quatro dias vamos ter empresas, agricultores, artesãos, animais, restauração, concertos e muita gente a passar pelo recinto. É uma feira que os portalegrenses conhecem bem, alguns vão todos os anos, outros aparecem por causa de um artista ou para jantar, e há quem vá simplesmente dar uma volta.
A Feira das Cebolas nasceu há muito tempo, por alvará de 3 de agosto de 1753, e nessa altura uma feira tinha uma função muito concreta. Servia para vender, comprar, conhecer comerciantes, perceber preços, escoar o que se produzia e fazer contactos. Havia convívio, claro, mas as pessoas não levavam uma carroça carregada de produtos só para passear. Iam porque precisavam de fazer negócio, e era ali que muita coisa acontecia.
Entretanto passaram quase três séculos, a feira desapareceu durante alguns anos, foi recuperada e foi mudando, como é normal. Hoje tem música, animação, espaços diferentes e uma dimensão que já ultrapassa a venda de cebolas ou de outros produtos agrícolas. Ainda bem, porque uma tradição que fica exactamente igual durante trezentos anos acaba por deixar de interessar a muita gente.
A Câmara Municipal de Portalegre tem mérito por manter a Feira das Cebolas no calendário e por lhe dar condições para crescer, em colaboração com a Associação dos Agricultores do Distrito de Portalegre e com a NERPOR. Isto deve ser reconhecido sem grande conversa, porque organizar quatro dias de feira dá trabalho, custa dinheiro e há sempre alguma coisa que corre menos bem. Quem já organizou um evento sabe disso.
Aquilo que eu gostava é que olhássemos cada vez mais para a Feira das Cebolas como uma feira económica e não apenas como uma festa onde também existem empresas. Parece a mesma coisa, mas não é bem. Um empresário que monta um expositor, leva trabalhadores, prepara material e passa quatro dias no recinto está a investir tempo e dinheiro. Um agricultor que leva os seus produtos espera vender, encontrar clientes e talvez conhecer alguém que lhe compre com regularidade. O artesão está lá pelo mesmo motivo. O público é importante, os concertos ajudam, a restauração também, mas convém que no fim haja alguma coisa para quem foi trabalhar.
É difícil medir isso, eu sei. Contar entradas é mais fácil do que perceber quantos contactos deram origem a uma encomenda dois meses depois, quantos produtores conseguiram entrar numa loja ou quantas empresas encontraram um parceiro. Mesmo assim, devíamos começar a fazer essa conta, mesmo que no primeiro ano valha o que vale. Perguntar aos expositores o que venderam, que contactos fizeram, se voltariam e o que faltou, já dava informação suficiente para melhorar muita coisa.
A NERPOR vai promover este ano o encontro Cultivar Negócios, dedicado ao risco, aos apoios e à internacionalização das empresas. O nome teve de existir porque estas coisas precisam sempre de um nome, mas no fundo a ideia é bastante simples, juntar empresários e falar de problemas que aparecem todos os dias. Há empresas que vendem bem e chegam ao fim do mês sem dinheiro, outras têm condições para exportar mas não sabem por onde começar, outras estão mal protegidas e só descobrem quando acontece um problema. Levar estes assuntos para dentro da feira faz sentido, porque também isto é fazer negócio.
A feira pode ainda aproximar melhor as empresas da agricultura, do comércio, do turismo e da indústria que existe no distrito, embora às vezes nem nós conhecemos tudo o que se produz aqui. Há empresas a vender para fora, produtores com produtos muito bons, projectos novos e gente a fazer coisas interessantes, mas continuamos com dificuldade em mostrar isso até dentro da própria região.
Durante estes quatro dias espero ver muita gente no recinto, claro, mas gostava sobretudo que os expositores vendessem, que aparecessem novos clientes e que alguns contactos continuassem depois da feira. No domingo desmontam-se os espaços e cada um volta à sua vida. Depois é perceber se valeu a pena. É uma pergunta simples e devia ser essa a pergunta.