O grupo “Valorizar Quem Cuida”, que reúne doentes oncológicos, familiares e amigos, vai enviar uma exposição a várias entidades locais e nacionais em defesa da continuidade e regularidade das consultas do oncologista Rui Dinis no Hospital Doutor José Maria Grande, em Portalegre. Caso não haja resposta ou evolução até dia 17 de Setembro, o grupo admite realizar uma marcha silenciosa entre a Praça da República e a unidade hospitalar.
Doentes oncológicos, familiares e amigos reuniram-se na noite de terça-feira, 8, na Praça da República, para definir os próximos passos da mobilização em torno da reorganização do Serviço de Oncologia do Hospital Doutor José Maria Grande.
O encontro, muito participado, foi promovido pelo movimento “Valorizar Quem Cuida”, criado a partir de um grupo de doentes que começou por utilizar o WhatsApp para partilhar experiências e informações e que, entretanto, alargou a sua intervenção às redes sociais e a outras formas de mobilização. O principal objectivo é defender a continuidade e regularidade das consultas asseguradas pelo oncologista Rui Dinis, no âmbito de uma reorganização que a ULSAALE está a preparar no Serviço de Oncologia.
Durante a reunião foi apresentada uma exposição que será enviada a Câmaras e Assembleias Municipais do distrito, Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, deputados eleitos por Portalegre, responsáveis partidários, órgãos da Unidade Local de Saúde do Alto Alentejo, Ministério da Saúde, Liga Portuguesa Contra o Cancro e Presidência da República.
O documento contesta uma reorganização que, no entendimento do grupo, possa colocar em causa a qualidade, a proximidade e a continuidade dos cuidados prestados aos doentes oncológicos e às suas famílias. Uma das principais preocupações é a alegada redução do tempo de actividade do oncologista Rui Dinis no Hospital de Portalegre.
Em declarações ao nosso jornal, Sónia Silva, uma das organizadoras do encontro, sublinhou que o movimento não se opõe à entrada de um novo oncologista no serviço. O que pretende, explicou, é que esse reforço não seja feito à custa de uma redução do tempo de consulta de Rui Dinis.
«Não estamos contra a vinda de médico nenhum, é sempre bom reforçar o Serviço de Oncologia, só não queremos é perder o nosso médico», afirmou.
Segundo Sónia Silva, as informações que chegaram ao grupo apontam para que Rui Dinis passe a dar consultas apenas um dia por semana, um período que considera insuficiente face ao número de doentes acompanhados. Recordou ainda que o oncologista chegou a trabalhar no hospital quatro a cinco dias por semana, incluindo aos fins-de-semana.
«Somos muitos doentes, infelizmente cada vez mais, e somos acompanhados de uma forma muito carinhosa, de uma forma muito próxima», referiu.
Questionada sobre os esclarecimentos públicos prestados pela Unidade Local de Saúde do Alto Alentejo (ULSAALE), Sónia Silva considerou que continuam a ser «muito vagos» quanto ao número de horas e de dias que Rui Dinis continuará a assegurar no hospital de Portalegre.
A mobilização já tinha levado à criação de uma petição que, segundo a organização, ultrapassou as 2.600 assinaturas e foi enviada à Assembleia da República.
Na exposição apresentada esta terça-feira, os participantes defendem que a qualidade de um serviço de saúde não deve ser avaliada apenas através de indicadores administrativos, mas também pela competência dos profissionais, capacidade de resposta, proximidade e humanização dos cuidados. Consideram ainda que a redução das condições de actividade de profissionais diferenciados é especialmente preocupante num território que enfrenta dificuldades na captação e fixação de médicos.
As desigualdades no acesso à saúde no interior foram igualmente destacadas. Os participantes lembraram que muitos doentes têm de se deslocar para outros pontos do País para realizar exames, tratamentos ou procedimentos indisponíveis localmente, com custos financeiros e desgaste físico e emocional acrescidos.
«O acesso aos bons profissionais de saúde não pode depender do código postal de cada cidadão», refere a exposição, que defende que a interioridade não pode traduzir-se num menor acesso a cuidados diferenciados.
A reunião ficou também marcada por testemunhos de doentes sobre o acompanhamento recebido. Um dos participantes contou que uma consulta inicialmente prevista para uma sexta-feira acabou por ser realizada no domingo seguinte, apresentando o episódio como exemplo da disponibilidade de Rui Dinis. Outra doente recordou o acompanhamento prestado durante o processo que a levou a duas cirurgias no IPO de Coimbra, incluindo contactos do médico nas vésperas das intervenções.
No final do encontro, o grupo deixou prevista uma nova forma de protesto caso não exista, entretanto, uma resposta ou evolução relativamente às preocupações apresentadas. Se «nada for feito» até dia 17 de Setembro, os participantes admitem reunir-se novamente na Praça da República, às 17h, e seguir em marcha silenciosa até à porta do Hospital Doutor José Maria Grande.
A escolha do silêncio foi explicada através de uma frase que marcou a reunião: «O percurso do doente oncológico é feito de longos e duros silêncios». A eventual marcha pretende, assim, simbolizar também a experiência vivida por quem enfrenta a doença e, simultaneamente, reforçar o apelo à manutenção de uma resposta oncológica de proximidade em Portalegre.





