Sete, o número 7, é uma espécie de amuleto, mágico, que funciona na perfeição entre nós. A sua aura vem de tempos imemoriais e ainda não se extinguiu, bem pelo contrário. A numerologia, “ciência” tão exacta como a astrologia, por exemplo, serve-se dele para justificar as suas bases e já Pitágoras, segundo consta, lhe chamou sagrado, perfeito e poderoso.

A Bíblia e o Catecismo, convenientemente interpretados, confirmam tal rigor, que se mantém portanto como verdade quase absoluta: sete pecados capitais, sete virtudes divinas, sete sacramentos, sete dons do Espírito Santo, sete Obras de Misericórdia, sete arcanjos, sete igrejas iniciais do Cristianismo…

O mundo dito profano, na sua imensa diversidade, regista, por exemplo: sete braços no candelabro judeu, sete notas na escala musical, sete cores no arco-íris, sete jogadores numa equipa de andebol, sete dias na semana, sete colinas em Lisboa e também em Roma, sete pedras de dominó na mão, sete anões a acompanhar Branca de Neve, o diabo a sete ou… fugir a sete pés!

E, como as pragas do Egipto também foram sete, toca a espalhar novas epidemias do espectáculo e do negócio, sob este número mítico.

Tenho, desde sempre, as maiores reservas quanto ao engodo generalizado que dá pela sigla das Sete Maravilhas de Qualquer Coisa. O caso vai pela sua edição número não sei quantas e o esquema mantém-se igual a si próprio, utilizando a boa vontade de quem a tal se presta, honesta e ingenuamente julgando defender a sua causa.

O que verdadeiramente interessa, e é esse o único objectivo da organização, resume-se ao valor acrescentado dos telefonemas dos votantes, e quantos mais melhor. Em troca, passa num relance um fugidio momento de efémera e televisiva glória alusiva a cada candidatura, mas a quantidade bem depressa submerge a qualidade.

No final, para que serve toda a encenação? O que vale, na realidade, a conquista de um lugar no pódio das Sete Maravilhas? Por outras palavras, quem se lembra dos anteriores vencedores de qualquer das categorias até agora abrangidas por um tal circo de vaidades?

Alguém recorda quais são os sete maravilhosos monumentos arquitectónicos, ou as sete maravilhosas obras de natureza, ou os sete maravilhosos vestígios da presença lusa no mundo, ou os sete maravilhosos pratos da nossa cozinha?

Agora são as 7 Novas Maravilhas de Portugal e, a propósito, talvez seja útil e pedagógico lembrar coisas esquecidas.

Por exemplo, foi desastrada a estreia mundial do concurso original promovido pela New 7 Wonders Foundation, o tal que terminou em apogeu no estádio da Luz, em 7 do 7 de dois mil e 7. A Unesco censurou asperamente a iniciativa sobretudo porque nada nela houve relacionado com a defesa ou conservação do património, considerando que apenas teve motivações comerciais.

Soube-se mais tarde que alguns sítios na Internet ofereceram sorteios de viagens aos concorrentes para promoverem a votação, naturalmente associada, claro, aos tais telefonemas de valor acrescentado. Países houve onde se desencadearam campanhas nacionais de apelo ao voto, como por exemplo Brasil, Índia, Peru ou Jordânia.

O jornal El Mundo, espanhol, afirmou em editorial que e eleição fora uma farsa à escala global e um grande negócio marcado por simpatias nacionais, onde o promotor tirou proveitos do ponto de vista económico, sendo incrível que instituições públicas um pouco por todo o mundo se tivessem prestado a participar naquela comédia, enquanto o governo francês considerou o acontecimento como uma mera iniciativa privada. O ministro grego da Cultura chamou-lhe um concurso de beleza…

No final, à margem do regulamento, a organização viu-se obrigada a conceder um título extra de Maravilha Honorária às Pirâmides de Gizé, no Egipto, o único local que restara das autênticas e clássicas 7 Maravilhas do Mundo.

A versão indígena do concurso -agora em reprise– não é melhor, nem poderia sê-lo.

Quando foi organizado o evento em torno das Sete Maravilhas de Portugal, nenhum dos conjuntos urbanos nacionais classificados pela Unesco foi contemplado na escolha prévia, sendo aí incluídos lugares-comuns como o Templo de Diana ou o Castelo de Guimarães. As praças-fortes de Valença, Almeida ou Elvas, a fortaleza de São Julião da Barra, a Ribeira do Porto, as aldeias de Sortelha ou Marialva, a Ponte Maria Pia ou as gravuras paleolíticas de Foz Côa, por exemplo, foram locais então ignorados…

O que se passou com as Sete Maravilhas da Gastronomia, em 2011, foi ainda mais escandaloso ao ponto de ter levado o então presidente do Turismo do Alentejo, Ceia da Silva, a tecer duras e públicas críticas à organização, que considerou não merecer qualquer tipo de crédito.

A RTP deixou de “prestigiar” o concurso, agora sob tutela da TVI. Pudera, que melhor oportunidade teria esta de dispor de programas que lhe enchem facilmente, com audiência e com lucro, manhãs e tardes inteiras!?

O Presidente da República anterior, fã da popularidade fácil, apadrinhou o concurso. O actual é bem mais seguro, quero dizer, bem mais prudente.

Em 2026, serão portanto eleitas as Novas 7 Maravilhas de Portugal.

Diz a organização que vinte anos depois, as 7 Maravilhas regressam com a nobreza do património português, a imponência de séculos de história, o Portugal moderno e admirado, e o dourado que distingue aquilo que é verdadeiramente uma maravilha”.

Mal andaria a Sé Catedral de Portalegre se precisasse desta farsa para ter visibilidade.

Também me custa saber a nossa Câmara Municipal associada a isto…

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