Meses de trabalho ganharam finalmente forma na noite de ontem, dia 7, quando centenas de campomaiorenses se reuniram nas ruas da vila para dar vida à tradicional Noite da Enramação. Dos mais novos aos mais velhos, entre escadotes, arames, milhares de flores de papel, modas campomaiorenses e o som das pandeiretas e castanholas, cada rua revelou, pouco a pouco, o resultado de um trabalho mantido em segredo ao longo de vários meses, num ambiente de convívio, entreajuda e dedicação que antecede a abertura oficial das Festas do Povo 2026.

Onze anos depois da última edição, Campo Maior prepara-se para receber milhares de visitantes naquela que é uma das mais emblemáticas manifestações da cultura popular portuguesa, reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. O nosso jornal acompanhou de perto os trabalhos em várias ruas e falou com alguns dos seus cabeças de rua, que abriram as portas dos bastidores de uma celebração feita de meses de trabalho, dedicação voluntária e um profundo espírito comunitário.

Da ideia à Enramação

Para quem percorre as ruas já enramadas, o espectáculo dura apenas alguns dias. Para quem o constrói, começa muitos meses antes. Em várias ruas, os primeiros encontros aconteceram ainda no final do ano passado, seguindo-se longos serões de trabalho repartidos entre as casas dos moradores e as tradicionais Casas das Flores, onde milhares de flores de papel ganharam forma pelas mãos de voluntários de todas as idades.

Na Rua 3 de Dezembro – A Canada, Cristina Pepe descreve a emoção de ver o trabalho finalmente ganhar forma, considerando que «é muito gratificante chegarmos a este ponto e vermos as coisas que nós produzimos em grupo», lembrando que todo o processo exigiu «uma logística muito grande» até ser possível «concretizar um sonho de todos da rua».

A preparação começou entre Novembro e Dezembro, primeiro com pequenos trabalhos realizados em casa e, mais tarde, com os habituais serões na Casa das Flores. Cristina Pepe destaca que o projecto só foi possível graças ao envolvimento de muitas pessoas, recordando que «tínhamos muitos voluntários que não pertencem à rua». Entre eles estiveram o Estabelecimento Prisional de Elvas e uma escola de Vila Boim, acrescentando que «só assim é que conseguimos, com a ajuda de toda a gente, porque a rua é muito grande e não temos muitos moradores».

Para a decoração, a rua inspirou-se num jardim de hibiscos. «Quisemos centrar-nos principalmente nas flores e no jardim, porque é aquilo que é nosso, o nosso património é a flor», explica a cabeça de rua.

Também na Rua 13 de Dezembro – Segundo Troço, a preparação arrancou antes mesmo da distribuição oficial do papel. Joana Monteiro e Júlia Rodrigues recordam que começaram a comprar material por iniciativa própria para executar os elementos mais minuciosos das flores.

Terminada a longa preparação, chega agora o momento mais aguardado. «Depois de tanto trabalho, queremos agora é divertir-nos, aproveitar todos os vizinhos e todos os visitantes», afirmam.

Mais do que flores, pessoas

Se há algo que une todas as ruas é o sentimento de pertença. Muito para além das flores de papel, das estruturas e das cores escolhidas, são as pessoas que continuam a fazer das Festas do Povo uma tradição única, passada de geração em geração.

Na Rua de São João, Rua de Santa Cruz e Caleja, o sentimento era particularmente intenso para Vanda Carrilho. Embora não resida actualmente na rua, garante nunca ter perdido a ligação às suas raízes e relembra que tudo começou com uma reunião entre moradores.

A Noite da Enramação coincidiu com uma data carregada de simbolismo pessoal. «O meu avô foi quem me incutiu as Festas do Povo desde muito pequena. Foi ele que me ensinou a cortar um arame, a dobrar papel, a fazer tudo», recorda emocionada, explicando que nesse mesmo dia o avô faria anos. Para Vanda Carrilho, o momento ganha um significado ainda mais especial, confessando que «é um orgulho para mim e para qualquer membro que tenho aqui comigo, desde o mais pequeno até ao maior, ver e desfrutar das nossas festas».

Inspirada em Marrocos e Granada, a decoração da Rua de São João, Rua de Santa Cruz e Caleja procura recriar elementos característicos daqueles locais, sem perder a identidade das Festas do Povo. «Tentamos fazer tudo ao pormenor», afirma, deixando o convite para «quem vier ver a Rua de São João, que venha durante o dia e durante a noite».

Para Vanda Carrilho, as Festas do Povo vivem-se muito para além da decoração das ruas. «As nossas festas começam desde uma reunião até um montar de rua, até um convívio.»

Na Mouraria de Cima, onde os moradores são cada vez menos, o projecto ganhou novo fôlego graças ao envolvimento de voluntários e das gerações mais novas. Lucila Meira explica que tudo começou a 12 de Janeiro e que a participação do neto foi determinante para avançar com a candidatura da rua.

Apesar das dificuldades, o sentimento é de missão cumprida. «É uma grande emoção que sentimos e vemos que conseguimos vencer porque temos poucas pessoas a trabalhar», afirma, lembrando as muitas horas dedicadas às flores «todas as noites» para dar vida a um jardim composto por flores de várias formas e cores.

Quando as ruas florescem

Mais de 100 mil flores deram forma à Rua dos Combatentes da Grande Guerra. Inspirada no Japão, a decoração aposta no forte impacto visual da flora japonesa. Sofia Cabral explica que «idealizámos um projecto de rua que esteticamente fica muito, muito bonito».

À medida que os visitantes começavam a percorrer as ruas ainda durante a montagem, aumentava também a ansiedade de quem trabalhou durante meses para aquele momento. «Isto dá ansiedade, euforia, alegria, realização. Mas a realização é só mesmo quando terminamos», confessa.

Enquanto as últimas flores eram colocadas e os escadotes começavam lentamente a desaparecer, ouviam-se já as modas campomaiorenses e o som das pandeiretas que acompanham esta tradição. Depois de meses de trabalho, de horas e horas de dedicação e de um espírito de entreajuda que atravessa gerações, Campo Maior voltou a florir. 

A partir de hoje, as ruas deixam de pertencer apenas a quem as construiu e abrem-se ao olhar de milhares de visitantes que, durante nove dias, irão apreciar o resultado de um trabalho feito em comunidade e guardado em segredo até ao último instante.

Publicidade