A vindima está a começar na Serra de São Mamede e, antes de se falar do grau da uva, da qualidade do ano ou do vinho que vai sair das adegas, há produtores com uma preocupação muito mais simples. Quem é que vai apanhar a uva? Começam os telefonemas para quem trouxe trabalhadores no ano passado, pergunta-se onde andam as equipas de indianos, paquistaneses ou nepaleses e tenta-se juntar gente depressa, porque a uva fica pronta quando fica pronta e não espera que Portugal resolva a sua política de imigração.
Este ano, o Alentejo espera produzir cerca de 108 milhões de litros de vinho, mais 20 por cento do que em 2025. É uma boa notícia, claro, mas mais uva também precisa de mais braços e é aqui que o discurso começa a bater na realidade. Gostamos muito de falar do vinho como identidade, paisagem e orgulho regional, mas esquecemos que alguém tem de andar no campo, ao calor, a cortar cachos durante horas.
Passamos boa parte do ano a discutir os imigrantes como se fossem gente que chegou sem utilidade, trazida por não se sabe quem e para nos criar um problema. Depois chega a vindima e os números de telefone deles passam de mão em mão entre produtores. O mesmo acontece na construção, nos restaurantes, nos hotéis, nos lares e em várias fábricas. Queremos as obras feitas, a mesa servida, os idosos cuidados e a uva dentro da adega, mas ainda há quem olhe de lado para as pessoas que fazem esse trabalho.
Na agricultura e pescas, quatro em cada dez trabalhadores por conta de outrem já eram estrangeiros em 2023, com especial peso de trabalhadores da Índia, do Nepal e do Bangladesh. Isto não é uma opinião sobre imigração, é a economia portuguesa a funcionar como consegue num país envelhecido e com falta de gente em muitos sectores.
Também convém parar com a conversa fácil de que os portugueses não querem trabalhar. Uma vindima é trabalho duro, dura pouco tempo, começa cedo, muitas vinhas ficam longe de tudo e nem sempre há transporte ou alojamento. Quem tiver uma alternativa mais estável vai escolhê-la, seja português, indiano ou paquistanês, porque ninguém vive de amor à uva e as contas chegam durante os doze meses do ano.
O problema do Alto Alentejo não se resolve todos os anos com produtores a andar atrás de equipas à última hora. A região devia saber com antecedência quantas pessoas são necessárias para a vindima, quantas passam depois para o olival e quantas podem continuar na indústria, na construção ou no turismo. Com algum trabalho de organização seria possível dar mais meses de rendimento a quem vem e mais segurança às empresas que hoje vivem com o coração nas mãos sempre que começa uma campanha.
E há outra parte desta conversa que custa mais admitir. O Alto Alentejo não tem apenas falta de mão de obra, tem falta de pessoas. Precisamos de quem venha trabalhar, mas também de quem fique, alugue uma casa, ponha os filhos na escola, compre no comércio local e talvez um dia crie o seu próprio negócio. Se tratarmos os imigrantes apenas como braços que aparecem na vindima e desaparecem quando acaba o trabalho, eles irão para outro lugar assim que puderem, exactamente como fizeram tantos alentejanos antes deles.
Quando abrirmos uma garrafa da Serra de São Mamede vamos falar da altitude, do solo e das castas, porque isso vende e faz parte da história. Mas dentro daquela garrafa também está o trabalho de alguém que nasceu muito longe daqui e que, durante algumas semanas, ajudou a salvar a colheita de um produtor da nossa terra. A uva não quer saber de onde vieram as mãos que a apanharam. Nós devíamos preocupar-nos mais com a forma como essas pessoas cá trabalham, cá vivem e, quem sabe, cá ficam.
Tiago Braga – Presidente da NERPOR
