Dezenas de aves ameaçadas abandonaram a colónia onde estavam a nidificar na Albufeira do Caia, Em Santa Eulália (concelho de Elvas), poucos dias depois de a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA-BirdLife) ter alertado as autoridades para o risco iminente de destruição desta colónia, localizada numa área importante para aves, onde o acesso de gado deveria estar interdito.
A denúncia foi feita pela organização ambientalista, que afirma ter comunicado a situação, no dia 1 de Junho, ao Departamento Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Alentejo, ao Núcleo de Protecção Ambiental da GNR e à Agência Portuguesa do Ambiente. No alerta enviado, a SPEA advertia para a presença de vacas a pastar junto às margens da albufeira e para a possibilidade de os animais alcançarem uma pequena ilha utilizada por várias espécies para nidificação.
Segundo a organização, observações realizadas no terreno no final da última semana permitiram confirmar o abandono das colónias de perdiz-do-mar, chilreta e pernilongo. Embora não tenham sido encontrados sinais directos de destruição dos ninhos de pisoteio por vacas, a SPEA considera que a perturbação causada pela proximidade do gado terá sido a principal causa do abandono.
Na ilha estavam identificados, durante esta Primavera, entre 40 e 50 casais de perdiz-do-mar, espécie classificada como Vulnerável, pelo menos cinco casais de chilreta, igualmente Vulnerável, além de vários casais de pernilongo e de borrelho-pequeno-de-coleira.
«Estamos perante uma situação inaceitável. A SPEA alertou formalmente para o risco, identificou a localização da colónia e pediu uma intervenção urgente para impedir o acesso do gado. Poucos dias depois, a colónia foi abandonada», afirma Julieta Costa, coordenadora de Conservação Terrestre da SPEA-BirdLife.
A responsável considera que o caso representa «a perda de uma época de reprodução de aves ameaçadas, numa área reconhecida pela sua importância para a conservação», sublinhando que não pode ser encarado como um episódio menor.
A organização recorda ainda que a legislação em vigor proíbe o acesso de gado ao leito da albufeira e sustenta que a situação observada justificava uma actuação imediata das entidades competentes. Segundo a SPEA, este não é um caso isolado. Um episódio semelhante terá ocorrido em 2023 na mesma albufeira, tendo resultado igualmente na destruição de uma colónia de aves nidificantes.
Além disso, a associação revela ter recebido informação sobre uma situação semelhante ocorrida este mês na albufeira de Alqueva, junto à aldeia da Luz, onde a presença de gado terá provocado o abandono de uma colónia com mais de uma centena de casais de tagaz.
«Não basta lamentar depois de a perda estar consumada. Quando há alertas concretos, coordenadas, espécies identificadas e enquadramento legal claro, a resposta tem de ser rápida. A inacção também tem consequências», sustenta Julieta Costa.
Perante o sucedido, a SPEA exige o apuramento de responsabilidades e a adopção urgente de medidas que impeçam o acesso de gado às áreas sensíveis da Albufeira do Caia durante a época de nidificação. A organização defende ainda que o caso deve servir de alerta para a necessidade de reforçar a protecção de áreas consideradas importantes para a conservação de aves ameaçadas.

