A Quinta Formosa, em Portalegre, vai ganhar uma nova vida com o projecto de requalificação que vai permitir ali instalar a sede da Tégua – Associação de Desenvolvimento Regional d’Entre o Tejo e Guadiana e o Centro de Alojamento Temporário para os Sem Abrigo, num investimento total de mais de 2,2 milhões de euros, que será financiado em 85% pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no âmbito de uma candidatura que foi aprovada e cujo o contrato foi assinado no final de Junho.
A aprovação da candidatura traduz-se no concretizar de um sonho para a Tégua, que vê assim o projecto, idealizado há cerca de nove anos, dar um passo significativo e que vai permitir melhorar a importante resposta social que dá às pessoas sem-abrigo, actualmente instalada num edifício da Rua Lopes Pires e que não está nas melhores condições, além de fazer parte de uma herança indivisa.
A boa-nova foi anunciada ao nosso jornal pelo o presidente da Tégua, Francisco Silva, que explica que este projecto «esteve parado durante muito tempo e que agora, neste mandato, conseguimos que as coisas pudessem realmente andar e serem aprovadas», lembrando, contudo, que o processo «foi iniciado há cerca de nove por Joaquim Herculano, à época presidente da associação, e que depois teve continuidade com António Queiroz, quando este assumiu a liderança da Tégua».
O projecto vai nascer na Quinta Formosa, nas traseiras da antiga Fábrica Robinson, propriedade da Câmara de Portalegre e que está sob a alçada da associação na sequência da celebração de um contrato de comodato por 30 anos, e visa a reabilitação de 12 fogos com vista à centralização num único espaço dos serviços prestados pela Tégua, nomeadamente os serviços da associação (sede) e o Centro de Alojamento Temporário para os Sem Abrigo.
«É um espaço que precisa muito de ser reabilitado, porque está muito degradado, o que também vai ser muito bom para a cidade que ganha assim um novo e moderno edifício», refere Francisco Silva, sublinhando ainda que a empreitada vai permitir aumentar as camas actualmente disponíveis no Centro de Alojamento Temporário para os Sem Abrigo.
A reabilitação da Quinta Formosa contempla um investimento total de 2.204.207,05€, sendo que será financiada no valor de 1.873.575,99€, a título não reembolsável, através da candidatura apresentada e agora aprovada ao abrigo da Bolsa Nacional de Alojamento Urgente e Temporário do PRR. O restante valor, ou seja, 330.631,06€, será assumido pela Tégua, que já tem «uma parte significativa» desta verba, sendo que para a restante a associação espera pelo apoio de outras entidades e/ou particulares. Caso isso não aconteça terá de recorrer à banca.
Para já «não há previsões de datas» para o início das obras, refere Francisco Silva, que explica que tudo está dependente da parte burocrática, nomeadamente o lançamento do concurso e outros processos necessários.
Para a concretização deste projecto, a Tégua tem já garantido o apoio de «um grupo de pessoas», onde se inclui o Eng. Pinto Leite, «que nos pode ajudar a nível técnico», mas também do Município que já garantiu o apoio necessário a nível das burocracias inerentes ao desenvolvimento do projecto».
Visivelmente satisfeito por ver este projecto dar um passo significativo rumo à sua concretização, Francisco Silva sublinha a importância desta boa-nova para o futuro da Tégua, uma associação que considera ser «mal-amada» na cidade, apesar da importante resposta social que presta à comunidade, sobretudo às pessoas mais carenciadas.
«Uma boa notícia para a Tégua e para Portalegre»
Para a presidente da Câmara de Portalegre, Fermelinda Carvalho, a aprovação da candidatura que vai permitir reabilitar a Quinta Formosa «é uma boa notícia para a Tégua, que ganha novas instalações, e para Portalegre, que vê mais um espaço ganhar vida».
Em conversa com o nosso jornal, a autarca, que reconhece a necessidade e importância deste projecto, garante que o Município vai apoiar a associação na parte burocrática e também na atribuição de um apoio monetário para o desenvolvimento deste processo.
«Ofereci a ajuda da Câmara para toda a burocracia, desde o lançamento do concurso público, e depois, futuramente, aos pedidos de pagamento, e também alguma ajuda que seja necessária de outro âmbito», revela Fermelinda Carvalho, que garante ainda que esta ajuda se estende ao nível financeiro. «Não sei ainda quantificar, mas vamos apoiar porque há uma fatia de autofinanciamento que se traduz num esforço financeiro para a Associação, e por isso já manifestei vontade de ajudar».
Um espaço moderno e adaptado às necessidades
O projecto que pretende dar nova vida à Quinta Formosa é da responsabilidade do arquitecto João Batista, que recebeu no seu atelier o nosso jornal e deu a conhecer todos os pormenores deste investimento.
O conjunto edificado é constituído por um edifício principal que será totalmente reabilitado, mantendo as características e traça senhoriais do início do século XX, bem como por mais dois conjuntos edificados onde nascerão novos edifícios, uma vez que não reúnem quaisquer condições de serem conservados dada a precariedade da construção e matérias empregues.
Em termos de estratégia de projecto, optou-se por reabilitar o edifício principal, propor a construção nova, em idêntica volumetria, dos dois conjuntos de edifícios e a criação de um novo edifício que pretende criar um novo acesso ao conjunto total e a ligação física entre os três primeiros gerando ainda um conjunto de quartos e apoios.
Assim, o edifício principal de dois andares terá no rés-do-chão uma área de recepção, uma sala de reuniões e copa, dois gabinetes administrativos e um gabinete da direcção. No primeiro piso ficará a sala de convívio, a sala de refeições, a cozinha e um pátio exterior, e no segundo piso ficará o gabinete de enfermagem, bem como três gabinetes técnicos.
Num dos conjuntos edificados será feita a readequação de espaços interiores por forma a ser constituído o núcleo de serviços de apoio aos funcionários, como apoio à cozinha, arrecadações, entre outros, e no segundo conjunto, constituído por casas corridas, será constituído o núcleo de alojamentos e quatros.
O novo edifício que será construído de raiz e que liga todo o conjunto terá mais quartos e um pequeno pátio privativo, bem como um local de estar e de acesso aos alojamentos.
No total, o Centro de Alojamento Temporário para os Sem Abrigo terá capacidade para 23 utentes em regime de permanência, distribuídos por dois quartos triplos, três quartos individuais e sete duplos.
Ao nosso jornal, o arquitecto João Batista assume que este projecto «foi um desafio» porque «é um edifício histórico ligado à Robinson», sublinhando ainda a importância deste para o próprio funcionamento da Tégua e do Centro de Alojamento Temporário para os Sem Abrigo.
«Este projecto pode ser catalisador de uma nova dimensão para a Tégua. A nível de projecto, foi um projecto desafiante também, e parece-me que consegue responder bastante bem aos interesses da Tégua, ou seja, é um alojamento para os sem-abrigo, com uma capacidade também de resposta a novos sem-abrigo a nível nacional, com um pátio interessantíssimo, que consegue fazer a ligação com o edifício existente, e com toda uma infra-estrutura nova e adequada à funcionalidade e aos interesses actuais da associação».
O Centro de Alojamento Temporário para os Sem Abrigo tem 18 utentes em regime de permanência e sete em regime de Centro de Dia, contando ainda com um total 12 trabalhadores.



